A Fórmula do Amor SOLTANDO O VERBO

Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que o aumento da expectativa de vida exerce grande influência nas nossas atitudes. Principalmente quando falamos sobre a tomada de grandes decisões. A intensidade com a qual vivemos é inversamente proporcional à longevidade. Estranho, né? Bem, nem tanto.

O que me deu base para essa afirmação foram as minhas aulas de Literatura do Ensino Médio. Tomei o século XIX como ponto de partida. Além de pesquisar alguns dados e registros, me servi de algo que retratava o comportamento das pessoas: a Literatura. Livros expõem anseios, alegrias e a realidade de uma época e lugar. De certa forma, acho esse tipo de registro muitas vezes mais válido do que apenas números de pesquisa. Então vamos lá.

No início do século XIX, a expectativa de vida não superava os 40 anos. Com a Revolução Industrial, a coisa foi mudando de figura. Você consegue se imaginar vivendo somente quatro décadas? É claro que muita gente morre cedo, mesmo nos dias de hoje, mas 40 anos era a velhice daquela época; os 80 ou 90 dos dias de hoje. Casar, constituir família, educar os filhos e morrer na mesma idade em que muitas mulheres estão tendo o seu primeiro – e muitas vezes único – filho atualmente.

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Acho que agora dá pra imaginar o motivo pelo qual os livros da época do Romantismo eram tão dramáticos: as pessoas morriam por amor, de amor e pelo amor não correspondido. Houve uma leva de suicídios na Europa por causa do livro que inaugurou o movimento literário do Romantismo, chamado “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Wolfgang Goethe. O sofrimento de um homem por saber que Charlotte, sua endeusada paixão, estava compromissada e de casamento marcado. Não havia tempo para recomeçar, como fazemos hoje. Talvez por isso que tudo era tão intenso. Porque tudo acontecia mais rápido! Hoje, com cerca de “apenas” o dobro da expectativa de vida, levamos duas vezes – ou talvez mais – o tempo para fazermos as mesmas coisas.

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Aprendemos a arte de procrastinar: pra quê fazer hoje o que eu posso deixar pra semana que vem? Por achar que ainda temos tempo o suficiente para tomar nossas decisões, deixamos passar grandes oportunidades, as quais não voltarão a bater em nossa porta. Acabamos, em oitenta anos, vivendo menos do que quem só tinha a opção de morrer aos quarenta.

Mas uma coisa que temos em comum com os Românticos do século XIX é o “gosto pelo efêmero”. Todos nós sabemos que nada é permanente. Mas a atual volatilidade das relações interpessoais – e até mesmo das coisas – é algo assustador. Vamos ilustrar fazendo uma comparação com algo um pouco mais recente: a época dos nossos avós. Muita gente completa bodas de ouro por aí. Tá certo que muita gente manteve casamento por causa dos filhos, por medo do que os outros iriam pensar, mas muita gente se mantinha casada, literalmente, até que a morte separasse, simplesmente porque se amava.

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Hoje em dia é muito comum ver casamentos, namoros e outros tipos de relação, inclusive de trabalho, se desmanchando mais facilmente. Talvez as pessoas estejam mais impacientes, menos compreensivas ou, para não ser durona, mais exigentes umas com as outras. Minha mãe passou boa parte da vida dela, 27 anos, trabalhando na mesma empresa. Inclusive se aposentou por lá. Hoje, a gente não vê mais as pessoas passando tanto tempo no mesmo lugar. Minha mãe adorava o trabalho dela. Já eu, não consigo me imaginar fazendo a mesma coisa, todo santo dia, por tanto tempo. As relações de hoje não duram mais tanto quanto antes. Acredito que até o sentimento é diferente. É tudo tão rápido que a gente esquece de sentir e, ao mesmo tempo, deixa tudo pra depois, pela segurança da expectativa de viver quase um século inteiro. Nem a bateria dos celulares tá durando como antigamente, putz grila.

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Não é com frequência que nos pegamos pensando “e se eu morrer cedo?”. Mas quando isso acontece, imaginamos mil e uma coisas que faríamos, que diríamos às pessoas. Vivemos na eterna “segurança” de viver bastante, ter tempo para tudo. Mas… E se ousássemos viver com a intensidade do século XIX? Acredito que não morreríamos por um amor mal resolvido. Mas teríamos tempo o suficiente para viver e reviver cada amor, cada alegria, cada viagem. Estaríamos numa constante renovação, num crescente aprendizado. Com certeza viveríamos mais, muito mais do que a longevidade que o século XXI pode proporcionar.

E você, o que falta fazer, que ainda não fez?

Beijocas!


Danina

Observações

  1. Cara, que texto sensacional!

    • Olá Lucas!
      Que bom que você gostou do texto! Sempre que tiver alguma sugestão de tema ou quiser fazer as suas perguntas, contar alguma história, entra em contato com a gente!
      :)

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