Minha experiência com apps de encontro. SOLTANDO O VERBO

Em novembro do ano passado eu fiz a minha primeira viagem sozinha. Fui para São Paulo fazer um curso de produção de shows. Foi a primeira vez que eu me senti verdadeiramente livre, independente e, estando longe de casa, eu tinha plena consciência de que, a partir daquele momento, nada poderia me deter e me impedir de conseguir todas as coisas que eu queria.

Foi então que, no meu primeiro café da manhã no hotel, eu avistei um garoto sentado sozinho em outra mesa. Ele tinha um notebook e não tirava os olhos daquela tela. E eu, não tirava os olhos dele. Ele usava óculos e não fazia muito o tipo de quem frequentava academia, ou seja, na minha opinião, ele era simplesmente uma graça (visto que eu tenho um gosto meio peculiar, que muitos já sabem. Só me interesso por gente completamente fora do padrão). E, como eu tinha de sair correndo para estar no curso na hora marcada, nem deu tempo de chegar na mesa da frente e dizer “e aí, quer namorar comigo?”. Brincadeira. Mas vontade não me faltou.

No dia seguinte, na mesma hora e local, eu esperava encontrar o garoto lá, tomando café da manhã e sem o notebook a tiracolo desta vez. Nada. Nem sinal do bonito. Foi aí que eu tive a ideia que eu achei que tinha sido a mais brilhante do mundo naquele momento. Baixei um aplicativo de encontros chamado Happn, que é baseado na geolocalização. Ou seja, só vão aparecer pra ti as pessoas com quem tu cruzou na rua em algum momento. E, claro, dentro do intervalo de idade que tu escolher. Pensei comigo “se este garoto está hospedado no hotel, certamente ele vai aparecer pra mim alguma hora. Por via das dúvidas, também baixei o Tinder. Mas fiquei tão apavorada com as coisas que vi lá que logo deletei. Sei lá, por um momento, parecia que eu estava vendo um catálogo de cortes de carne num açougue.

À primeira vista, o Happn me pareceu mais “leve”, porque dava as opções de estar disponível pra correr, sair pra comer, assistir um filme etc. Então, como eu estava em um ambiente completamente novo, fazendo coisas diferentes, resolvi dar uma olhada nos perfis das pessoas enquanto tentava achar o bendito garoto do café da manhã. Comecei a dar uns coraçõezinhos só de boba. Até que as pessoas começaram a retribuir. Quando eu menos esperava, aparecia uma notificação na tela dizendo que eu tinha um novo crush.

No fim das contas, não achei mais o garoto do café da manhã. Mas, não contem pra ninguém, tirei uma foto dele escondida pra mostrar pra minha irmã. Os dias passaram e eu voltei pra casa. Esqueci do aplicativo completamente. Até que as notificações começaram a pipocar de novo na minha tela. Bateu a curiosidade e eu abri o aplicativo novamente. E começou a aparecer gente que eu conhecia! Nossa, que vergonha! Ao mesmo tempo em que eu ficava me perguntando o que aquelas pessoas estavam fazendo no aplicativo, aposto que elas pensavam o mesmo de mim. É tão estranho, porque eu me dizia “mas o Fulano ali, sempre foi um guri tão bem resolvido, sempre saiu com quem quis e tá aí, procurando dates na internet”. Podia parecer um pouco de preconceito da minha parte, mas é que eu ainda não tinha entendido todas as possíveis propostas de um aplicativo assim. Foi nesse momento em que eu comecei a prestar mais atenção em tudo. 

Num dia em que eu estava sem fazer nada na casa da minha tia, resolvi brincar de distribuir “xis” e “coração”. E encontrei um ex-ficante meu (de uns 10 anos atrás). Dei um “coração” pra ele por dois motivos: porque ele é tri legal e porque eu estava curiosa pra ver se ele faria o mesmo comigo. Dito e feito. A gente começou a conversar na brincadeira e ele disse que andava curtindo o perfil das meninas que ele já tinha ficado pra ver se elas retribuiriam. De curioso, como eu. Mas ele me disse que estava usando o aplicativo muito pouco, visto que as pessoas nunca puxavam assunto quando “dava match”. Reparei na mesma coisa. Eu já tinha uma quantidade considerável de “crushes”, tipo uns trinta em menos de um mês de uso, e eles raramente puxavam assunto comigo. Achei aquilo tão estranho que resolvi fazer algo a respeito.

Escolhi três crushes que eu sabia que não veria tão cedo (os que estavam a uma distância de mais de 100km, por exemplo) e enviei a mesma mensagem para os três, que dizia “e aí, broto, tudo bacana?”. E funcionou. Os caras achavam muito engraçada a abordagem e engatávamos conversas que duravam dias, semanas. Comecei a usar essa frase toda a vez que alguém puxava assunto comigo e vice-versa. No fim das contas, até mensagem de Feliz Natal eu recebi.

As conversas eram realmente muito divertidas. Eu percebi então que o critério que eu usava para curtir o perfil de alguém era, na verdade, os interesses em comum e não somente as fotos. Na minha opinião, de que adiantava curtir um bonitão que não ia ter assunto comigo? Então, eu via qual era a ocupação das pessoas, o que elas postavam no Instagram e a lista de músicas do Spotify. Normalmente, eram pessoas que tinham algum interesse por artes, gostavam de viajar e escutavam rock.

Eu comecei a notar o seguinte: as conversas eram tão interessantes que o fato de a distância ser grande e a chance de um encontro ser mínima, nada nos impedia de ficar de papo furado por dias e dias. Ninguém se preocupava que, no fim de tudo, ninguém ia sair com ninguém. Isso acontecia na maioria das vezes.

Foi quando eu comecei a tirar algumas conclusões.

As pessoas hoje em dia estão muito, mas muito carentes de atenção umas das outras. E, ao mesmo tempo, gente se contenta em conversar através de mensagens de texto e é incapaz de sair pra tomar um chopp ou jogar uma partida de sinuca com pessoas da vida real. É como se as pessoas não tivessem uma vida “tangível”. É claro que elas têm amigos e lugares onde podem ir pra se divertir. Mas o que uma pessoa faz em sextas e sábados à noite conversando em aplicativos de encontro com pessoas que estão a uma distância de, pelo menos, uma hora e quarenta minutos (de avião)?

As pessoas precisam ficar toda hora alimentando seu ego. Vocês acham que ver aquele monte de notificações de novos crushes aparecendo na minha tela o tempo todo não deu um baita boost no meu ego? Mas é claro que deu. Saber que as pessoas que achamos interessantes pensam o mesmo a nosso respeito é uma coisa muito legal. E ilusória, ao mesmo tempo. Teve um cara que veio me questionar o motivo de eu ter dado um “like” no perfil dele porque, segundo ele mesmo, uma “guria tão linda e cheia dos talentos, só pode ter clicado errado”. Em primeiro lugar, muito obrigada pelo elogio. Em segundo lugar, eu posso ter toda e qualquer qualidade do mundo e ainda assim isso não me coloca nem acima e nem abaixo de ninguém.

Todo mundo tem inseguranças, mas isso não significa que devemos ficar com alguém mais inseguro que a gente só pra nos sentirmos melhor. Eu nunca vou me diminuir pra caber no mundo de alguém. Mas, ao mesmo tempo, na minha opinião, a frase “muita areia pro meu caminhão” simplesmente não existe. O que existe são pessoas com interesses parecidos ou interesses diferentes. Pessoas com habilidades, aparência, hábitos, modos de vida parecidos ou diferentes. Algumas coisas aproximam certas pessoas e afastam outras. Estar a fim (de verdade) de alguém envolve muito mais do que o olho pode ver. E quem fica se preocupando com atributos físicos nunca vai sentir isso de verdade.

Trazendo alguns dados pra vocês: neste exato momento em que vos falo, faz exatamente quatro meses e dezesseis dias que eu instalei o aplicativo. Ocultei três mil cento e oitenta e três perfis. Tenho cento e cinquenta e oito crushes e recebi vinte “Hi”. De todos os crushes, conversei com setenta e cinco. Tá, mas e o mais importante, com quantos eu saí no fim das contas? Zero. Isso mesmo, com ninguém. Não que não tenham pedido. Vários me chamaram pra sair. Teve até gente que foi extremamente insistente a ponto de me fazer ser grossa (o que não me custa muito).

Tá, mas e por que tu não saiu, Dani? Sei lá. É esquisito. Parece que algumas relações são feitas pra acontecer online e ficar lá. Um papo divertido pode te fazer ficar horas atirada no sofá falando coisas engraçadas com gente estranha. E, sem contar que, nessa hora a gente se permite ser quem a gente quiser. Inclusive ser aquilo que a gente nem é. Mas a verdade é que eu nunca quis sair com qualquer um deles. Minha irmã ri quando eu repito a frase: “Se eu quisesse sair com esse cara, eu mesma teria chamado. Mas ora, eu me governo!”. Aliás, por mais que possa parecer muito progressista essa minha frase, eu dificilmente chamo alguém pra sair, a não ser que eu esteja MUITO a fim do cara. Mas se ele ficar se fazendo, eu não vou repetir o convite, já que um dos meus piores defeitos é ser meio orgulhosa.

Pra sair, pra me envolver com alguém na vida real, fotos escolhidas a dedo e uma conversa bem pensada simplesmente não me bastam. Eu preciso de um olhar diferente, preciso ver a pessoa rindo de uma bobagem que eu falei a ponto de fechar os olhos, inclinar a cabeça pra trás e perder o fio da conversa que estava acontecendo paralelamente naquele momento. Pra despertar meu interesse, eu preciso ir aos poucos, admirando as coisas que a pessoa faz, reparando em detalhes que antes me passavam despercebidos. Quando estamos seguros, atrás de nossas telas de celular, não sentimos aquele nervoso de ficar na presença da pessoa mesmo estando em um lugar cheio de gente. Ou de deixar a pessoa sem graça com um olhar sem vergonha, que nem pisca, e que faz a pessoa desviar o olhar umas cinco vezes. E que faz ela voltar a olhar todas as vezes pra ter certeza.

A impressão que dá é que, com o celular em mãos, protegidos por um teclado e a possibilidade de desistir do que se disse quando feito em poucos segundos, as pessoas estão cada vez mais com medo de viver. De sentir. Poxa vida, é uma merda levar um fora ou não ser correspondido. Mas às vezes, ao chegar em casa e encharcar o travesseiro, pelo menos a gente sabe que está vivo. A minha adolescência foi uma montanha-russa de sentimentos. Assim como num dia eu chegava muito mal da escola porque aquele garoto dois anos mais velho por quem eu era apaixonada, nem me dava bola, no outro mês eu estava dando pulos de alegria porque havia me apaixonado de novo por uma pessoa completamente diferente. E tinha dado o meu primeiro beijo. Tipo coisa de filme, sabe? (pra conhecer essa história, clica aqui)

Diferente de quando eu comecei a escrever aqui no blog, hoje em dia eu estou mais perto dos trinta do que dos vinte anos de idade. Agora eu enxergo as coisas de forma diferente. E eu me sinto tão viva, faço só as coisas que gosto na minha vida, sou bem resolvida com a pessoa que me tornei (tenho muito orgulho dela, pra falar bem a verdade). É uma pena que ainda exista gente que tem medo de quebrar a cara por não querer sofrer. Meus melhores textos foram escritos de coração partido. A primeira música que eu compus foi escrita de coração partido. Acho que, pra quem trabalha com arte, amar e sofrer são partes essenciais no processo de criação. Mas deveriam exercer o mesmo papel na vida de todo mundo. Porque quanto mais a gente sente, mais a gente vive. E mais a gente quer sentir. E viver. E sentir.


Danina

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