Como solidificar um pensamento e transformá-lo em primeiro beijo. CONTOS

O primeiro amor a gente nunca esquece. Assim como a gente não esquece do nosso primeiro dente que caiu, a nossa primeira menstruação, a primeira nota abaixo da média no boletim – ou a primeira nota acima da média, dependendo da pessoa. Só que o que eu vou contar pra vocês é muito mais do que uma história de primeiro amor. É uma história que eu chamo de “pensamento solidificado” e uma prova de que, para conseguirmos alguma coisa, o primeiro passo é querer. Mas tem de ser de verdade.

Eu tinha treze anos e era apaixonada, há mais de um ano, por um menino dois anos mais velho do que eu. Ele estudava na mesma escola e sempre me ignorou. Não era para menos. Quando eu encontro alguma fotografia dessa época – raramente, inda bem – dá vontade de chorar. De rir.

Até um certo ponto da minha vida, eu praticamente não tinha vontade própria. Eu era obrigada a vestir as roupas que a minha mãe escolhia e, se eu quisesse usar algo de diferente, ela me incomodava até eu desistir da ideia. Pra você ter noção, até os meus quatorze anos de idade eu não sabia como o meu cabelo era de verdade. Quando eu saía do banho, a minha mãe já entrava no banheiro com o secador de cabelo em uma mão e a escova na outra. “Deus o livre de sair com o cabelo molhado de casa!” – dizia ela. Então eu era obrigada a lavar o cabelo à noite. Mas não podia sequer cogitar a possibilidade de sair do banheiro com o cabelo molhado para não correr o risco de pegar um resfriado. Agora, imagine a cena: minha mãe, com toda a força que um corpo de pouco menos de cinqüenta quilos pode prover, fazendo escova no meu cabelo dentro de um banheiro tomado completamente pela umidade. Juba de leão era fichinha perto do que ficava meu cabelo. Aí, no outro dia, ir para a escola era a legítima tortura. Eu nem me olhava no espelho. Logo colocava uma faixa na cabeça numa tentativa falha de disfarçar a moita que era aquilo que eu chamava de cabelo. E, óbvio, ia pra escola rezando pra ninguém me olhar.

Sabe aquela fase que a gente começa a ter espinhas, andar de modo desengonçado e crescer de forma totalmente desproporcional? Pois é, essa era a situação em que eu me encontrava naquela fase da minha vida. Foi aí que, pra amenizar meu sofrimento, minha irmã veio com uma ideia genial. Passar os cabelos a ferro de passar roupa! Naquela época já existia chapinha, babyliss e afins, mas a nossa situação financeira não nos permitia tal luxo. São nos momentos de dificuldade que surge a criatividade. A minha empregada nos ajudava. Era só botar a mecha de cabelo em cima mesa de passar, colocar um lenço de algodão em cima para não queimar o cabelo e colocar bastante força no ferro! A juba de leão se transformava em crina de cavalo. Quase que instantaneamente.

Voltando à história: eu era apaixonada pelo carinha da escola e ele me ignorava. Até que, por convite da minha prima Ana, eu fui participar da gincana da escola dela, na cidade vizinha – detalhe: as duas cidades são tão perto que parecem uma só, apenas sete quilômetros de distância. Eu conhecia alguns dos amigos dela mas era tanta gente diferente que era impossível não se sentir um pouco deslocada. O QG da equipe era num pavilhão vazio no centro da cidade. Tinha apenas uma sala separada do resto e foi pra lá que eu fui. Era uma sala não muito grande, com aquelas mesas brancas de plástico que a gente vê normalmente em clubes com piscina. Algumas canetas, alguns papéis, vários enigmas para resolver. “É aqui que eu vou ficar”, pensei.  Sentei à mesa, comecei a fazer contas, substituir letras por números, cores por letras. Estava muito compenetrada, sempre adorei desafios. Quase não me dei conta de que alguém havia sentado à minha direita com alguns enigmas novos. Alguns minutos mais tarde, levantei a cabeça olhei aqueles papéis diferentes na mesa e perguntei, para aquela pessoa desconhecida se eu poderia dar uma olhada naqueles enigmas. Foi quando a pessoa levantou a cabeça, olhou pra mim e disse: “Tudo bem.” Estava vestindo uma camiseta preta e calça jeans. Ele parecia ser poucos anos mais velho do que eu, que tinha recém feito treze. O seu rosto era diferente dos outros meninos e chamou muito a minha atenção. Ele tinha os cabelos claros e cacheados. Há quem diga que ele fazia permanente, mas enfim, não vamos quebrar o clima né? –  Eu simplesmente gelei naquela hora. Senti uma coisa muito engraçada dentro de mim, uma mistura de frio com vergonha, sei lá. Me deu uma vontade de rir. Sabe aquelas horas em que você não pode rir mas dá uma vontade que te faz querer segurar os cantos da boca porque simplesmente não é a hora de rir? Eu estava bem assim. Apoiei o rosto na minha mão direita, cotovelo sobre a mesa. Fiquei olhando para o outro lado, tentando me conter e fingir que estava escrevendo alguma coisa. Quando criei coragem, me espreguicei e olhei para o lado para tentar ler o nome que estava no crachá dele. Pierre. Era este o seu nome. Não consegui mais pensar em enigma algum. Minha participação mental naquela gincana acabara naquele momento. Ele logo saiu dali pra resolver alguma coisa, pois ele desempenhava um papel importante na equipe, era líder ou algo assim. Fiquei tentando entender o que aconteceu. Será que eu estava me apaixonando por outra pessoa que eu mal conhecia? Por alguns instantes, tentei colocar os pensamentos em ordem. Jura que eu ia conseguir, né? Eu logo saí com a minha prima, a vagar pelo centro da cidade. Ela estava cumprindo alguma tarefa, que era procurar alguém específico que estava escondido. Eu estava sonhando acordada, lembrando daquele momento único e, ao mesmo tempo olhando muito atenta para todos os lados, procurando “esbarrar” com o Pierre em alguma rua.

Não muito tempo depois, minha mãe ligou avisando que ia me buscar pois já estava anoitecendo e ficando frio. Eu não queria ir mas, como você sabe, com ela não tem discussão. Cheguei em casa cansada e querendo jantar, tomar um banho e dormir. Meus pensamentos estavam leves como uma pluma, perambulando a uns oito quilômetros dali, imaginando tudo o que não aconteceu: encontrar ele na rua, ele perguntar o que estávamos fazendo, decidir vir junto com a gente, bater um papo, e terminar com ele pedindo meu telefone. Imaginei mil e um diálogos, conversas que não acabavam. Conversas que, infelizmente, nem começaram. O que me deixava feliz era saber que no dia seguinte tinha mais. Era o último dia da gincana. Dormi tão bem, acho que eu cheguei a sonhar com tudo aquilo que havia acontecido naquele dia. De repente, eu me dei conta de que eu não estava pensando naquele outro garoto, o da minha escola.

Acordei cedo, num salto. Analisando a minha situação daquele momento e sendo realista, não adiantava criar esperanças. O Pierre poderia nem lembrar de mim. Ele não perguntou meu nome, mal me olhou na cara e não hesitou em sair daquela sala quando foi requisitado. Mas eu não me apeguei a esse tipo de pensamento. Na verdade, isso nem passou pela minha cabeça. Eu estava radiante e feliz. Passei o resto da manhã arrumando os meus cabelos, escolhendo uma roupa bem bonita. Logo mais, à tarde, eu teria a oportunidade de encontrar o novo “amor da minha vida”. A minha mãe ia passar a tarde na casa da minha avó e, no meio do caminho, iria me deixar na gincana – detalhe: ela nem sabia que eu estava apaixonada. Você não vai acreditar no que aconteceu. Eu simplesmente NÃO FUI. Fiquei tão envergonhada, sentindo como se estivesse escrito na minha testa que eu estava loucamente apaixonada pelo Pierre. Fiquei a tarde inteira sentada ao sol, na frente da casa da minha avó, imaginando como teria sido se tivesse ido. Não me arrependi. Me senti mais segura só de imaginar. Mas óbvio que, antes de voltar pra casa, eu pedi para a minha mãe passar em frente ao QG da equipe, já que era no meio do caminho. Olhei para todos os lados mas, apesar de todo o esforço, não vi ele por ali.

Cheguei na escola na segunda-feira e contei tudo para as minhas amigas, quase explodi de tanta animação. Uma das minhas amigas tinha uma loja de roupas nas duas cidades, então ela me falou tudo o que ela sabia sobre o Pierre. Ele era três anos mais velho do que eu e consideravelmente popular na escola, o que significava que as minhas chances se reduziam a… zero. Não sei o motivo, mas eu tinha uma esperança bem pequenininha guardada, como uma faísca, sabe? Abre parênteses: É tão engraçado, essa história aconteceu há mais de dez anos. A pessoa que eu era aos treze era muito diferente da pessoa que sou aos vinte e quatro. O que eu mais sinto falta daquela menina era a garra, a força de vontade e o fato de não desistir de tudo ao se deparar com o primeiro obstáculo. Talvez essa nota seja um desabafo, uma saudade daquela faísca que um dia existiu dentro de mim. Talvez ela esteja aqui, em algum lugar, esperando para fazer alguma diferença novamente. Se você está entrando na adolescência ou pedindo desconto para aposentados na fila do supermercado, não importa. O meu recado é que você nunca deixe essa energia interior se dissipar. Por menor que seja essa faísca. Alimente ela, reanime, faça de tudo para que ela se torne uma fogueira que não vai mais se apagar. Você vai ver a diferença, os outros também. Fecha parênteses.

Eu estudava de manhã, mas de vez em quando eu matava tempo à tarde na escola. Naquela semana, numa tarde em que eu não deveria estar por lá, estava eu à toa na biblioteca, fazendo absolutamente nada. Nisso, chega uma colega e pergunta para as meninas que estavam junto comigo se elas iriam na festa do terceiro ano da escola do… Acertou! Era uma festa para arrecadar dinheiro para a formatura. A formatura do Pierre só seria no ano seguinte, mas algo me dizia que ele, com certeza, estaria lá. Eu acabara de entender o motivo pelo qual eu estava lá na biblioteca da escola, naquele momento, com aquelas pessoas, fazendo coisa alguma. Deveria haver algum motivo por trás disso. Fui para casa mergulhada em uma alegria sem tamanho, planejando tudo, sem ao menos saber se minha mãe deixaria eu ir. É claro que deu briga na minha casa, afinal de contas, a festa era em uma boate famosa da minha cidade e a minha mãe não queria que eu arredasse o pé de casa, aos treze anos de idade, para ir a um lugar cheio de gente mais velha e que comercializasse bebida alcóolica. Depois de muito explicar que era uma festa especial, e que o lugar havia sido cedido para os estudantes da escola e blá blá blá, ela deixou eu ir! Primeiro passo, ok. Agora faltava decidir como, com quem, com que roupa eu iria… Ah, eu precisava comprar o ingresso também! Respirei fundo e tentei organizar os pensamentos dentro da minha cabeça, pois a festa aconteceria dentro de dois dias.

Acordei organizando tudo, fazendo notas mentalmente e imaginando todo o percurso do dia, nos mínimos detalhes. Tínhamos até às 17h daquela tarde de quinta-feira para fazer tudo, pois a minha irmã precisava pegar o ônibus para ir para a faculdade e a minha mãe iria dar carona pra ela. Meu pai havia me dado cinquenta reais e o pedido de trazer o troco de volta. Fomos até a cidade vizinha, e metade da minha tarde eu gastei à procura de uma calça jeans nova para ir na festa. Quando eu finalmente achei uma calça que ficava bem em mim, que eu gostasse e que a minha mãe não reclamasse, fomos direto à procura do tal vendedor de ingressos pra festa. Chegamos na escola do dito cujo e eu, olhando para cada centímetro daquela rua, na esperança de avistá-lo. Tudo o que eu tinha era o nome do menino que estava vendendo ingressos e uma nota de cinquenta, para a qual ELE NÃO TINHA TROCO! Não dava tempo de ir até a casa da minha tia ver se ela tinha troco, pois, no relógio do carro, o horário marcava 16:42. Minha irmã não podia perder o ônibus para a faculdade, era dia de prova. Minha mãe disse pra eu desistir, afinal de contas, muitas festas aconteceriam depois daquela. Mas ela não sabia meu real motivo e eu também não podia dizer, senão ficaria certamente trancada em casa.

Eu estava perdendo todas as esperanças. “Não foi dessa vez. Não era pra ser.” – pensei. Foi quando, ao longe eu avistei minha prima Ana e duas amigas. Desci correndo do carro e fui falar com ela. Perguntei se ela tinha troco, pois eu queria comprar o ingresso da tal festa. Ela comentou comigo que também iria, que poderia comprar o ingresso para mim e que era para eu dormir na casa dela depois da festa. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo comigo. Nós estávamos na hora certa, no lugar certo. Tudo estava acontecendo melhor do que eu poderia prever. Me deu até medo. Estava tudo dando tão certo… será que no dia seguinte seria assim também?

Parte II aqui.


Danina

Observações

  1. […] Quando o amor começa, você sente borboletas na barriga, calafrios na espinha. Você fica contando os minutos e eles nunca passam enquanto você espera. E, nesse meio tempo, seus olhos não cansam de correr a multidão, com o intuito de encontrar a pessoa. E quando ela aparece e se aproxima, você gela, não sabe o que fazer e fica agindo como um idiota. Chega até a gaguejar na hora de falar. Sozinho, em casa, olhar para o nada é uma coisa muito comum. Você refaz em sua mente todos os momentos, os movimentos, cada palavra. Você sente o perfume da pessoa na rua e olha para os lados freneticamente, sem se dar conta de que alguém pode simplesmente ter um perfume igual. Você fica imaginando cenas e diálogos infinitos. Você faz planos a longo e curto prazo, imagina mil coisas: desde uma casa com cerquinha branca na frente até uma viagem de aventura ao redor do mundo. O seu gosto musical muda. Você descobre uma banda que a pessoa gosta e começa a ouvir pra ver se é boa mesmo. E você gosta, é claro que você gosta. Aliás, a música se torna uma grande parceira, pois você usa ela o tempo todo para tentar expressar o que você está sentindo. Qualquer piada ou brincadeirinha é engraçada e você se pega rindo sozinho o tempo todo. […]

  2. […] Será que era intuição? (Se você ainda não leu o texto que pode comprovar essa teoria, leia aqui.) Será que eu tinha a dimensão do quanto aquela fase seria especial e cheia de coisas […]

  3. […] é a segunda parte do texto “Como solidificar um pensamento e transformá-lo em primeiro beijo”. Se você ainda não leu, corre lá antes de ler o que vem a seguir. […]

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