Escrever um livro: dicas de quem já fez. DEDINHO DE PROSA

Quando eu estava fazendo a disciplina de Planejamento Gráfico na faculdade, conheci uma menina chamada Vanessa. Começamos a conversar em função de um trabalho em grupo. Nos intervalos das aulas, conversávamos sobre várias coisas e, numa dessas conversas, a gente estava se perguntando o que realmente queríamos fazer da vida. A disciplina era do curso de Jornalismo (sim, eu nunca cursei Jornalismo, eu só estava lá para aprender coisas sobre fonte, diagramação, espaçamento e outras coisas que eu também uso no meu outro trabalho fora do blog), mas ela comentou comigo que talvez aquela profissão não fosse bem o que ela estava procurando, pois ela não estava interessada em escrever sobre os acontecimentos corriqueiros da vida das pessoas.

Tem gente que simplesmente ama fazer isso mas, de certa forma, eu concordo com ela. O legal de escrever é deixar registrado algo que pode vir a ser útil para alguém. Claro que as notícias de um jornal são úteis para nos deixar informados sobre o que está acontecendo mas, a menos que você escreva uma coluna de opinião ou crônica, o trabalho de quem trabalha num jornal é simplesmente descrever acontecimentos (e sem colocar sua opinião, é claro!).

Não digo que a vida real não seja algo interessante. Na verdade, eu adoro observar as pessoas enquanto ando de ônibus. Fico imaginando como é a vida delas, o que elas fazem, pra onde estão indo. Às vezes, invento nomes para elas e invento a história de vida delas, que provavelmente tem absolutamente nada a ver com a realidade. Naquele curso de escritores que eu fiz (leia mais clicando aqui), aprendi muita coisa sobre ficção, sobre inventar uma realidade praticamente ou totalmente inexistente. Confesso que no começo eu fiquei confusa com aquilo tudo, pois estava acostumada demais a escrever e ler sobre coisas reais.

Um dia, correndo os olhos pelas coisas que meus amigos escreviam no Facebook, me deparei com um post dessa minha colega Vanessa contando sobre um livro que ela havia escrito. Na mesma hora, eu lembrei daquela conversa que a gente tinha tido no corredor da faculdade e pensei: “Que legal que ela foi atrás do que ela queria! Muita gente acha que não vai ter chance de fazer aquilo que sonha por não estar no lugar certo e na hora certa, mas ela mora numa cidade de pouco mais de 3.900 habitantes e conseguiu!” Hoje ela já está no seu terceiro livro e participou de várias Feiras do Livro.

Sabendo que muita gente tem vontade de escrever e publicar seu próprio livro mas não sabe como, eu fiz uma entrevista com ela, a escritora Vanessa Preuss. Fiz desde as perguntas mais básicas sobre a rotina dela de escritora até coisas bem específicas de publicação e distribuição do livro. Vamos conferir?

— Entrevista com a escritora Vanessa Preuss —

1. Como e quando você descobriu que queria ser escritora e fazer isso profissionalmente?

Eu sempre gostei de escrever, desde muito pequenina. Então isso entrou na minha vida de forma natural, mas no início eu confundi o amor pelas histórias com o amor pelo jornalismo. São dois ramos diferentes, mas onde a escrita é o meio. Só depois que não deu certo na profissão de repórter que percebi que queria escrever histórias que tocassem, divertissem e marcassem o coração das pessoas, não que relatassem um ocorrido. Então, escrevi meu primeiro livro e corri atrás de tudo relacionado à publicação, e a alegria que senti nesse meio tempo foi o suficiente para eu perceber que era isso. 

2. Em que circunstâncias você começou a escrever seu primeiro livro? O que estava acontecendo em sua vida?

Depois que descobri que o Jornalismo não era exatamente o que queria, fiquei um mês “de molho” em casa. Nesse tempo tive oportunidade de chorar, me culpar, refletir sobre o que queria, me perdoar e agir. Comecei a trabalhar em uma outra empresa como secretária e no meu tempo livre, a escrever. Eu já tinha escrito histórias antes, mas foi nessa época que comecei a levar a coisa mais a sério, principalmente depois de um acidente que sofri, em 2013. Iniciei um blog, uma página no Facebook e me dediquei com todas as forças a esse sonho.

3. Suas histórias são inspiradas em experiências próprias (ou de alguém próximo) ou são todas inventadas?

São histórias minhas e de outros. Por exemplo, esse meu acidente de carro que sofri em 2013 também foi um acontecimento que divisou a vida da minha personagem em A Garota de Greenwich. É claro que foi de maneiras diferentes – o acidente dela foi bem pior… (risos) -, mas se eu não tivesse passado pelo incidente seria bem mais difícil escrever. Outra coisa: minha personagem também lança um livro no final do meu livro… (risos). Acho que o segredo está ali: precisamos falar de algo que conhecemos, senão parece que tudo fica meio vago, sabe? Sempre busco descobrir sobre o lugar onde a trama se situa, seja pela internet ou contando com a ajuda de outras pessoas. E voltando à inspiração, tudo que está à minha volta me inspira, eu tento ler muito e durante o processo criativo, cada nova ideia é válida. A gente se mune de muita coisa.

4.Você faz pesquisas para escrever os seus romances (lugares, condições climáticas, paisagens naturais) ou é tudo fictício?

Sim, muitas! Eu nunca fui a Londres, por exemplo (local onde a personagem vai), mas tenho uma prima que mora lá. Pesquisei sobre o clima e descobri que lá chove muito, e é claro que foi preciso incorporar no livro. Também há o Observatório Real de Greenwich, onde se situa o meridiano famoso que todos nós estudamos na escola, e o parque de Greenwich. Tudo existe e foi incorporado à história! Eu particularmente acho importante dar essa atenção na obra, a não ser que você crie um mundo totalmente ficcional.

5. Como é a sua rotina de trabalho como escritora? Você escreve todos os dias ou só quando está inspirada?

Tento escrever todo dia. Nos finais de semana às vezes falho um ou dois para dar mais atenção à família, mas em geral sempre estou debruçada sobre meus escritos. Acho que isso é importante para não perder o fio da história, sabe? Mesmo quando não estou inspirada abro o computador e escrevo, senão muita coisa se perde ou se esquece nesse tempo. A Garota de Greenwich, por exemplo, foi escrita em 5 meses, todas às noites. Só dei um tempinho no fim para dar um molho na história e voltar com minha última revisão. Antes disso, eu escrevia feito louca mesmo. Quem quer escrever precisa fazer isso todo dia, senão não dá certo. Os grandes escritores fazem isso que sei (eu pesquisei…).

6. Quando você começa um romance novo, você já sabe tudo o que vai acontecer no desenrolar da história (início meio e fim)?

Quando começo uma nova história, faço tipo um esqueleto dela, sabe? Sei o que vai acontecer nos principais momentos, o que vai conduzir a história. Apenas entre o meio dessas ações que incorporo o que me vem a mente. Em geral sempre dá bem certo, e gosto bastante do resultado final.

7. Para publicar seu primeiro livro, você foi atrás de uma editora ou ela foi até você? Como foi esse processo? Você já estava com o livro pronto?

Quando eu terminei de escrever meu primeiro livro, que é A Garota de Greenwich, eu não tinha editora e nem sabia como faria para publicar. Não tinha nem ideia. Então entrei em contato com várias, e mandei para algumas que aceitavam via e-mail. Como algumas só aceitam impressas e via correio – e meu livro era muito grande -, optei primeiro pelo mais fácil… (risos). Descobri coisas de que não tinha ideia: um livro não publicado é chamado de Original, o método de avaliação é bem diversificado (depende de cada editora) e alguns exigem registro na Biblioteca Nacional. Por e-mail, recebi logo dois retornos positivos. Pensa a minha alegria? Eu tinha muito medo que fosse rejeitado (já que sempre me falavam que era muito difícil), então pulei de alegria! Meu livro foi publicado pela Editora Buriti, de Minas Gerais, e saiu na pré-venda em agosto de 2014. Depois, foi mais uma leva de aprendizados sobre divulgação, feiras de livro, etc, estou indo para o terceiro livro e ainda aprendendo muito.

8. Quem faz as capas dos seus livros? Você pode opinar em como vai ficar a arte final?

A parte das capas é uma das mais legais. Quem faz é o capista, que é terceirizado pela editora. O capista dos meus, chamado Hoton Ventura, fez 7 (!) capas para o meu primeiro livro, e a decisão final foi bem difícil..rs O mesmo aconteceu com o segundo livro. Foram 5 capas para eu optar. Geralmente é feita uma conversa sobre o que o autor espera dela (podemos opinar sim), mas o capista que tem essa responsabilidade de traduzir o espírito do livro pela capa no fim. Normalmente é uma capa só que fazem, mas ele foi bem generoso comigo neste caso. É um processo bem lindo e minucioso.

9. Quando você viu seu livro pela primeira vez em uma grande livraria? Dependeu de você ou a editora cuidou de tudo?

Depende dos dois, mas quem coloca o livro em consignação nas livrarias é a editora, a não ser que eu seja um escritor independente e cuide de tudo. Como não era, eles fizeram isso para mim. Eu acabei não vendo ele de fato, mas muitos amigos vieram correndo me falar que ele estava na Livraria Cultura de Caxias do Sul, logo após o lançamento. Eu fiquei muito emocionada. Mas ver ele no site da editora foi a maior emoção. Em geral, fora a ida em feiras do livro, a editora cuidou de tudo. 

10. Como é o público dos e-books? Dá resultados semelhantes aos do livro impresso?

No momento ainda não estou publicando em e-books. Pretendo fazer isso com meu terceiro livro.

11. Como você chegou às Feiras do Livro? Como é o processo de divulgação?

Esse é um processo que faço sozinha. Falo com o responsável, me apresento, e apresento minhas obras. Vejo se há possibilidade de participar, o que é preciso, se posso fazer bate-papo, conversar com escolas, etc. Esse contato com alunos e escolas é muito importante. Fui a primeira vez já na Feira de Porto Alegre. Deixei meus livros expostos numa editora e participei de dois finais de semana: um divulgando e outro fazendo sessão de autógrafo. Foi uma experiência muito válida. Desde então, já participei de várias. Para esse mês de outubro tenho 4 confirmadas e ainda farei visitas à escolas, todas na vizinhança da minha cidade, Tupandi.

12. É necessário investir muito dinheiro para ter um livro publicado? Precisa ter empresa (MEI ou algo do tipo)? A editora cuida do registro do livro na Biblioteca Nacional ou é o escritor que precisa fazer isso?

Meu primeiro livro teve um investimento alto, sim. Porém a margem do meu lucro era alto também, se comparado à outros escritores. E a editora fez tudo. Capa, diagramação, etc. Já no segundo, o valor foi simbólico, porém a margem caiu um pouco. Optando entre os dois, ainda prefiro o primeiro. Recuperei todo o dinheiro investido rapidinho. Eu não preciso ter empresa. Qualquer pessoa pode publicar um livro. E o registro pode ser feito por mim ou pela editora, basta apenas entrar em um consenso. Mas eu indico o Registro já logo quando a pessoa terminar o livro.

13. Dá pra viver somente da escrita? Que outros trabalhos ou projetos a vida de escritora já te rendeu?

Ainda não vivo apenas de meus escritos, pois estou no comecinho. Mas estou trabalhando para isso.  A escrita me fez conhecer muita gente importante, participar de muitas feiras, ser entrevistada pela Unisinos e sair no jornal da cidade vizinha… (risos). Pode parecer bobagem, mas foi uma época indescritível para mim. As pessoas passaram a me olhar com outros olhos, sabe? Mas só passei a fazer e mostrar o que realmente queria. E viajei de avião pela primeira vez por causa da escrita, tive contato com a Bienal do Rio e conheci editores importantes. Foi um passo importante para mim.

14. Você já pensou em desistir no meio do caminho? Qual foi o seu maior medo? Como você o superou?

Sempre dá aquele frio na barriga, sim. Tem meses que vende menos, ou simplesmente dias que você acorda mais desmotivada. Mas aí tento ler assuntos positivos, escritores que deram certo, revisar meu próximo livro em andamento, entregar um marcador de brinde à um cliente que vem na empresa onde trabalho, e vender um livro. Acho que isso acontece com todo mundo. É difícil, mas não é impossível. E aprendi a não ter pressa.

15. O que você espera do futuro? Quais são seus planos como escritora? Que dicas você dá para quem está começando a se aventurar pela escrita agora?

Meus planos para o futuro mais próximo é publicar com uma editora maior, que participe de feiras grandes e Bienais. Sinto falta disso na atual. Também pretendo continuar nesse ritmo de lançamento (pelo menos um livro por ano), e acertar veemente com um (ou mais deles). Ter um Best-seller, claro! (risos). Acho que é um sonho de qualquer um que escreve. Mas acima de tudo, que eu continue teimosa e persistente, sem nenhuma vergonha de levar meus livros às pessoas, pois isso tem me dado bons resultados. Espero conseguir viver da literatura antes mesmo dos 30 anos. E não penso estar sendo muito otimista que há pessoas que conquistam muito mais em pouco tempo. E para quem está começando agora, que leia muito e que escreva muito também. Que não se iluda pensando que seu livro irá mudar o mundo, mas que acredite ao menos que irá transformar você. Que não é fácil, mas que isso é com todas as pessoas. Que ela sentirá medo e que isso será normal. Mas que sonhe sim com um livro bom e que possa mudar pelo menos a pessoa ao seu lado um pouquinho, ou alegrar e inspirar. Que sem dúvida, a pessoa será mais feliz se isso for realmente o que ela amar. E que o retorno financeiro virá, mas também dependerá da dedicação dela. As pessoas são negativas, mas eu insisto em ser positiva.

[ Clique nas fotos para saber mais sobre cada livro. ]

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Visite a página dela no Facebook clicando aqui.

Eu andei pesquisando, depois da entrevista, sobre como publicar um e-book, justamente pensando naquelas pessoas que querem mostrar o seu material mas não têm grana para isso. É possível publicar o seu e-book através de vários sites, mas o que eu achei mais legal foi o site da Amazon, que vende e-books para ler na página da Internet e no Kindle, o que possibilita aos portadores de qualquer aparelho, seja ele específico para leitura de livro ou somente um celular, a carregar o seu livro pra onde quer que vão. O mais legal de escrever um livro para Kindle é que o leitor pode adaptar o tamanho da fonte para a leitura ficar mais confortável e isso não desconfigura a diagramação do material. Para mais informações, clique aqui.

E aí? Deu aquela vontadezinha de escrever? Quer divulgar seu livro? Manda o link pra gente!

Beijocas.


Danina

Observações

  1. Parabéns pelo texto lindo, Daniela! É uma honra tão grande poder dividir um pouco dessa transição do Jornalismo para a Literatura com você, especialmente porque fomos colegas! Obrigada pelo incentivo e interesse, por acreditar em minha história! Isso me incentiva a ir cada vez mais longe! Sucesso para você, e que possamos continuar inspirando e dividindo nossas muitas histórias que ainda estão por vir! Beeijos

    • Daniela Vaccari Diz: outubro 30, 2015 at 9:17 am

      Isso aí, Vanessa!
      Acredito que as coisas nunca acontecem por acaso. Tenho certeza de que a gente sempre vai poder contar com o apoio uma da outra!
      Quem sabe um dia surja alguma coisa para fazermos juntas, não é? Vai ser muito legal! De repente, se tu quiser um espaço aqui no blog, tá super convidada!
      Beijocas

  2. Tenho curiosidade sobre escrita, já rascunho algumas coisas, achei muito legal. Não sou formado, tenho apena o segundo grau completo. Não sou muito bom em português, e por isso acho que não daria um bom escritor. Mas como gostaria de publicar pelo menos um livro, e já comessei escrever. To achando muito legal. Por isso, pesquisando na Internet, como escrever um livro, me deparei com esse link ou não sei como se chama mesmo (não conhesso muito de internet) Escrever um livro: dicas da de quem sabe. Gostei muito das dicas, creio que tirei muitas duvidas que tinha. Parabenizo a Vanessa Perss por sua dedicação e coragem de si dedicar na escrita como escritora. Sempre confie em Deus, deposite toda sua confiança Nele e sirva a Ele e Ele confirmará, porque a última palavra é do Senhor. Que Deus te abençoe.

    • Olá Francisco!
      Muito obrigada pelo seu comentário! Não se preocupe com esse negócio de estar formado ou não. Se você realmente gosta daquilo que você faz, você vai conseguir atingir os seus objetivos. Escrever é como qualquer outra atividade: se você quer sempre melhorar, é importante continuar praticando. Quanto mais você escrever, melhor o fará. E quanto à língua portuguesa, o melhor que você pode fazer é ler bastante também. Isso vai te ajudar a aprimorar o que você já sabe e adquirir mais vocabulário. Se necessário, peça para alguém ler o que você escrever e corrigir pequenos erros.
      Tenho certeza de que vai dar certo! Um abraço!

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