[San Diego] Aí vamos nós! – Parte 2: Amolecendo Um Samurai Raivoso LIVING ABROAD

Por Karina Castilhos

 

Sabemos que, no que se refere aos Estados Unidos, a coisa é um pouco mais complicada, vistos e papeladas e blá blá blá. Bom, eu tinha de, em primeiro lugar, contar para a minha família que estávamos planejando isso  e depois tirar o passaporte, para encaminharmos o visto a tempo. Não vou nem entrar no assunto de como foi recebida a notícia da viagem pela família. Duas palavras resumem bem, choradeira e choradeira. Como se fôssemos para nunca mais voltar.

Nesse meio tempo, mais ou menos em novembro, descubro que vou ser tia. De duas meninas. Aí sim, essa notícia quebrou minhas pernas em vários pedaços, e deixou meu coração do tamanho de uma azeitona. Como é que ia ser agora? Toda aquela ladainha de medo passando na minha cabeça novamente.  O medo é esperto e sorrateiro, nos pega de surpresa. Mas com muito orgulho lhes digo, eu soube lidar com ele! Nós já estávamos agilizando as coisas para a nossa super aventura.

Finalmente meu passaporte estava pronto, e vinha então a primeira tensão da viagem, o temeroso visto americano. O que ouvimos de história e conselhos sobre o visto… Nossa! De acordo com o quadro que montaram para nós, conseguir o visto era quase como ganhar na loteria. Mas tudo certo, contratamos uma agência local para nos ajudar com a papelada e nos dar um treinamentozinho de como agir na embaixada americana. Já estávamos com o dinheiro contado para a viagem. E o visto só poderia ser tirado no Rio de Janeiro.

Primeiro gasto: ir até o Rio para tirar o visto. Fomos lá e, como não podíamos gastar muito dinheiro, a idéia era fazer tudo em um dia. Saímos do nosso estado (Rio Grande do Sul) às 6h da manhã, para voltar no mesmo dia por volta da 1h da manhã. Bom, durante o dia, os nervos estavam à flor da pele. Nossa entrevista estava marcada para às 14:45, íamos fazer a entrevista juntos como casal. Tínhamos sidos treinados um dia antes, parecia que estávamos indo para um júri publico, onde iriam nos julgar e nos sentenciar de morte se fizéssemos algo errado.

Nossas instruções foram básicas: não briguem, não chamem atenção, não vão com roupas decotadas e abertas. Vão arrumados, não mintam, respondam exatamente o que pedirem, não fiquem falando, e não isso, não aquilo. Meu Deus do céu! Até tinha perdido um pouco a vontade de ir para os States. Mas lá fomos nós.

Um calor infernal, os dois todo arrumadinhos, esperando para ser chamados em um fila gigantesca que dobrava a calçada. Sim, a fila estava do lado de fora do prédio. Prestando atenção no prédio da embaixada, vi que tinham algumas câmeras de segurança. Na hora pensei, com certeza tem alguém nos monitorando. E se for como nos filmes, já devem ter reconhecido nosso rosto, puxado online uma ficha completa da nossa família inteira. Quando, de repente, fui interrompida na minha super concentração por um casal brigando na nossa frente. Na hora pensei, putz, se ferraram, não dá para brigar na fila, muito menos chamar a atenção. Mas fiquei na minha.

Passou o tempo, fomos chamados. Entramos logo depois do casal brigão. E eles continuavam se bicando, mesmo lá dentro da embaixada. Fomos chamados, eles junto, fizemos uma nova fila, agora na frente de guichês, tipo uma rodoviária. Deveriam ter no total uns 10 guichês, mas só uns 5 abertos e realizando as entrevistas. Em uma breve análise decidi que não queria ir de jeito nenhum com o carinha do guichê número 1, ele tinha cara de mau, traços orientais, olhos meio puxados.

Já imaginei um samurai raivoso, esperando a chance de complicar a vida de alguém. No restante dos guichês, eram pessoas com aparência normal. Queridinhas. Bom, deveria ter umas 6 pessoas na nossa frente, incluindo o casal brigando (sim eles continuavam falando baixinho jogando umas verdades na cara um do outro). Quando os dois foram chamados, pensei na hora, certo que vão negar o visto para os dois, eles fizeram tudo errado. Distraída fiquei prestando atenção nos dois, e nem reparei que éramos os próximos a ser chamados, e adivinha qual o único guichê vazio? O número 1. Sim, fomos com o samurai raivoso. Nesse instante senti meu corpo todo suar. Minha bunda estava encharcada, não sei por quê, mas quando estamos nervosos, suamos na bunda. Essa é uma pergunta que me faço e nunca parei para pesquisar. Bom, mas voltando ao samurai.

Chegamos, ele levantou os olhos na nossa direção. Nem a cabeça ele levantou. Elevou suas sobrancelhas e olhou friamente para nós dois, que deveríamos estar com cara de paisagem, com aquele sorriso forçado sem mostrar os dentes parados em na frente dele esperando a primeira grande pergunta. Então ele leu os nosso nomes, que deveria estar na ficha que estava em suas mãos. Perguntou se trabalhávamos juntos (sim eu e meu namorado temos ambos dois empregos, e um deles é em uma escola, a mesma escola). Quando perguntou se trabalhávamos juntos no mesmo lugar, ele levantou a cabeça, e o seu olhar raivoso pareceu piorar. Dissemos que sim. Nesse instante eu pensei: “ferrou”. Foi então que ele disse em um português americanizado: “nossa se eu trabalhasse com a minha esposa no mesmo lugar, com certeza nos mataríamos” e deu uma risada. Nesse momento quase fiz xixi nas calças de tão tranqüila que fiquei. Demos uma risada, ele perguntou para onde estávamos indo, nós dissemos Califórnia. E então alguns segundos depois ele disse, “visto aprovado”. A minha vontade era pular no pescoço dele de alegria!

Se eu soubesse que era tão simples assim… E sabe quem conseguiu o visto também? O casal brigão!! Tiro uma conclusão disso: temos que ter a sorte de pegar o tiozinho do guichê de bem com a vida, e de ele ir com a nossa cara. Depois do visto aprovado, tínhamos algumas horas antes do nosso vôo para casa. Então fomos comemorar e tomar uma cervejinha na beira da praia de Copacabana. Afinal, depois da tensão toda… merecíamos!


Karina Castilhos

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